terça-feira, 20 de outubro de 2015



 NOUTROS LUGARES 
 
Não é que ser possível ser feliz acabe,

quando se aprende a sê-lo com bem pouco.

Ou que não mais saibamos repetir o gesto

que mais prazer nos dá, ou que daria

a outrem um prazer irresistível. Não:

o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando

o nosso pouco é feito da passagem delas.

Nem é também que ao jovem seja dado

o que a mais velhos se recusa. Não.



É que os lugares acabam. Ou ainda antes

de serem destruídos, as pessoas somem,

e não mais voltam onde parecia

que elas ou outras voltariam sempre

por toda a eternidade. Mas não voltam,

desviadas por razões ou por razão nenhuma.



É que as maneiras, modos, circunstâncias
 
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas de solta juventude.

As ruas rasgam casas onde leitos

já frios e lavados não rangiam mais.

E portas encostadas só se abrem sobre

a treva que nenhuma sombra aquece.


O modo como tínhamos ou víamos,

em que com tempo o gesto sempre o mesmo

faríamos com ciência refinada e sábia
o mesmo gesto que seria útil,

se o modo e a circunstância persistissem),

tornou-se sem sentido e sem lugar.


Os outros passam, tocam-se, separam-se,

exatamente como dantes. Mas

aonde e como? Aonde e como? Quando?

Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,

a que horas do dia ou da noite, não sei.

Apenas sei que as circunstâncias muda
m
e que os lugares acabam. E que a gente

não volta ou não repete, e sem razão, o que

só por acaso era a razão dos outros.



E do que vi ou tive uma saudade sinto,

feita de raiva e do vazio gélido,

não é saudade, não. Mas muito apenas

o horror de não saber como se sabe agora

o mesmo que aprendi. E a solidão

de tudo ser igual doutra maneira.

E o medo de que a vida seja isto:

um hábito quebrado que se não reata,

senão noutros lugares que não conheço.
 
Jorge de Sena (1967)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Zeca Afonso - Viva o Poder Popular


Não há velório nem morto
Nem círios para queimar
Quando isto der prò torto
Não te ponhas a cavar

Quando isto der prò torto
Lembra-te cá do colega
Não tenhas medo da morte
Que daqui ninguém arreda

Se a CAP é filha do facho
Se o facho é filho da mãe
O MAP é filho do Portas
Do Barreto e mais alguém

Às aranhas anda o rico
Transformado em democrata
Às aranhas anda o pobre
Sem saber quem o maltrata

Às aranhas te vi hoje
Soldado, na casamata
Militares colonialistas
Entram já na tua casa

Vinho velho vinho novo
Tudo a terra pode dar
Dêm as pipas ao povo
Só ele as sabe guardar

Anda cá abaixo, ó Aleixo
Vem partir o fundo ao tacho
Quanto mais lhe vejo o fundo
Mais pluralista o acho

Os barões da vida boa
Vão de manobra em manobra
Visitar as capelinhas
Vender pomada da cobra

A palavra socialismo
Como está hoje mudada
De Colarinhos a Texas
Sempre muito aperaltada

Sempre muito aperaltada
Fazendo o V da vitória
Para enganar o proleta
Hás-de vir comigo a glória

O Willy Brandt é macaco
O Giscard é macacão
O capital parte o coco
Só não ri a emigração

De caciques e de bufos
Mandei fazer um sacrário
Para pôr no travesseiro
Dum cura reaccionário

Não sei quem seja de acordo
Como vamos terminar
Vinho velho vinho novo
Viva o Poder Popular


domingo, 18 de outubro de 2015

79. Tejo que levas as águas (Manuel da Fonseca)



Poema de Manuel da Fonseca, interpretado por Adriano Correia de Oliveira

Tejo que levas as águas

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
De roubos fomes terror
Lava a cidade de quantos
Do ódio fingem amor

Lava bancos e empresas
Dos comedores de dinheiro
Que dos salários de tristeza
Arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas
Casebres bairros da lata
Leva negócios e rendas
Que a uns farta e a outros mata

Leva nas águas as grades
De aço e silêncio forjadas
Deixa soltar-se a verdade
Das bocas amordaçadas

Lava avenidas de vícios
Vielas de amores venais
Lava albergues e hospícios
Cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores
Vãs glórias, ocas palmas
Leva o poder dos senhores
Que compram corpos e almas

Das camas de amor comprado
Desata abraços de lodo
Rostos corpos destroçados
Lava-os com sal e iodo

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar.
             
Manuel da Fonseca, Poemas para Adriano, 1972

sábado, 17 de outubro de 2015

78. O meu amor mariñeiro (Poema de Manuel Alegre, interpretado por Fuxan Os Ventos)



"O meu amor mariñeiro" é uma canção composta pelo grupo  galego "Fuxan os Ventos", com letra em galego de Lois Álvarez Pousa, adaptada  do poema "A Trova do Amor Lusíada", original em português do poeta  Manuel Alegre, com música de Xosé L. Rivas Cruz.

O meu amor mariñeiro

Meu amor é mariñeiro
e vive no alto mar;
son os seus brazos o vento
ninguén llos pode amarrar.

Meu amor é mariñeiro
e cando me ven falar
pon un carabel nos beizos
no corazón un cantar.

EU SON LIBRE COMO AS AVES
E PASO A VIDA A CANTAR;
CORAZÓN QUE NACE LIBRE
NON SE PODE ENCADEAR.

Traio un navío nas veas
eu nacín pra mariñar;
quen tente porme cadeas
háme primeiro matar!
Vale máis ser libre un día
no confín do bravo mar,
que vivir toda a vida,
preso, escravo e a calar!

El vive alá lonxe, lonxe,
onde brúa o bravo mar,
e coa súa forza inmorrente
onda nós ha de voltar!

EU SON LIBRE COMO AS AVES
E PASO A VIDA A CANTAR;
CORAZÓN QUE NACE LIBRE
NON SE PODE ENCADEAR.

Nun momento, de repente,
eu sei que un día virá,
como se o mar e o vento,
en nós abrise a cantar.

HEI PASAR POLO LUGARES
COMO O VENTO NO AREAL
ABRIR TÓDALAS VENTANAS
COA ESCRAVITUDE ACABAR!

Polas rúas das ciudades
hei de pasar a cantar,
traguendo na mau direita
a espada da libertá.
Como se un navío entrase
de supeto, na ciudá,
traguendo a voar no mástil
bandeiras de libertá!

HEI PASAR POLO LUGARES
COMO O VENTO NO AREAL
ABRIR TÓDALAS VENTANAS

COA ESCRAVITUDE ACABAR!

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TROVA DO AMOR LUSÍADA


Meu amor é marinheiro
quando suas mãos me despem
é como se o vento abrisse
as janelas do meu corpo.


Quando seus dedos me tocam
é como se no meu sangue
nadassem todos os peixes
que nadam no mar salgado.


Meu amor é marinheiro.
Quando chega à minha beira
acende um cravo na boca
e canta desta maneira:


- Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar.


Trago um navio nas veias
eu nasci para marinheiro
quem quiser pôr-me cadeias
há-de matar-me primeiro.


Meu amor é marinheiro
e mora no alto mar
seus braços são como o vento
ninguém os pode amarrar.


Quando chega à minha beira
todo o meu sangue é um rio
onde o meu amor aporta
seu coração - um navio.


Meu amor disse que eu tinha
uns olhos como gaivotas
e uma boca onde começa
o mar de todas as rotas.


Meu amor disse que eu tinha
na boca um gosto a saudade
e uns cabelos onde nascem
os ventos e a liberdade.
   (…)



Manuel Alegre

Interpretação de Adriano Correia de Oliveira - aqui
Interpretação de Anabela - aqui

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O meu amor é marinheiro

Meu amor é marinheiro
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar.

Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Meu coração - um navio.

Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos e a liberdade.

Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira.

Eu vivo lá longe, longe
Onde moram os navios
Mas um dia hei-de voltar
Às águas dos nossos rios.

Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias.

Assim falou meu amor
Assim falou-me ele um dia
Desde então eu vivo à espera
Que volte como dizia.

Manuel Alegre

Interpretado por Amália Rodrigues, com música de Alain Oulman - aqui
Interpretado por Maria Bethânia - aqui

77. Como Ulisses te busco e desespero (Manuel Alegre)

COMO ULISSES TE BUSCO E DESESPERO


Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não vendo tudo são castigos.

Só não me canta Homero. Mas como Ulisses
vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar ‑ Pátria Sereia
Penélope que não te rendes – tu

que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo teu povo empunhe o arco
como Ulisses por ti nesta odisseia.
           
Manuel Alegre, Praça da Canção/O Canto e As Armas

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

54. Eis aqui o agiota (Fausto)


Eis aqui o agiota


Eis aqui o agiota
Eis ali a agiotagem


De novo mergulho na luz do astro da música
A minha cabeça
De novo à procura daquela
Melodia que teima
Em nascer às avessas
Se ribomba no contrapasso e se já cruza o ciberespaço
Então
Cuida de ti usurário
Na zona escura do erário
E da folia financeira
Do teu corpo fundo
E mais anónimo
À volta do mundo
Atravessando fronteiras

Esvoaçam

À tua volta esvoaçam
Taxas de juros e câmbios
De cambistas e banqueiros
Títulos e dívidas
Contraseguros
Visões garridas
Malabaristas
E oníricas
Do dinheiro

A minha guitarra não toca para ti
A minha guitarra rosna

Obeso e rebarbativo alardeando
A engorda
O teu figurino
Obesa a corruptela que mais
Disfarça e transforma
Selvagens capitalismos
Em brandos neoliberalismos
O mais doce dos eufemismos
E então
Tu provas na perfeição
Que geres com o teu cifrão
A infelicidade dos outros
Reduzes um drama
O do maior desemprego
A centigramas
À percentagem de uns poucos

Encurralados

Os mais jovens encurralados
Em becos rasos de seringas
Contrafeitos mercadores
Em praças e ruas
Ruelas e avenidas
Envergonhadas
E mais anuladas
As mãos estendidas
De arrumadores

Morreu a proletária ditadura
A ditadura do mercado já nasceu

Se cada vez menos produzem
Mais para a maior minoria
Toda a riqueza
Se cada vez menos para a imensa maioria sobram
Sobras que te caem da mesa
Da guerrilha dos capitais
Em doces paraísos fiscais

Então
Cuida de ti argentário
O que retrata este sudário
É a maior parte do mundo
Que sobrevive na penumbra
De olhos postos em ti
Moribundo
Mas que te olha já defunto

E enches a boca

De direitos humanos
Enches a boca
De fala
Do pensamento
Mas o do trabalho nunca
E porque será
Que esse direito
No esquecimento fica
Se crucifica
Mais
Se abdica
Mas fica a pergunta

Keynes
Ao pé de ti
E arrumado a um canto
É a alegoria
Ou o retrato de um santo?

Fausto Bordalo Dias (1974)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

51.Ser ou não ser (Manuel Alegre)

SER OU NÃO SER
         

                                                          «Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca»
                                                                                                    Shakespeare (Hamlet)
           
Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.

E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
           
Manuel Alegre, 1967